sábado, 7 de junho de 2014

Entre o Aprisco e o Curral

João 10.1-7

Encontramos figuras que são utilizadas metaforicamente para indicar a Igreja. Entre elas, a Igreja tem sido identificada como o aprisco onde as ovelhas se encontram, se aquecem e se protegem. No aprisco, considerando a perspectiva bíblico-teológica, as ovelhas conhecem o seu pastor. A figura do aprisco indica mais do que meramente um local onde as ovelhas se abrigam, indica a relação de confiança entre as ovelhas e o pastor. A palavra grega utilizada apresenta este sentido. “Parece ser um quintal na frente da casa, cercado por um muro de pedras que, provavelmente, tinha abrolhos em cima”.[1]
Esta figura que indica algo simples e tão familiar ao povo da época é utilizada pelo evangelista João para ilustrar a relação de pastoreio de Jesus para com os discípulos (João 10.1-7). Assim, o autor bíblico descreve esta relação entre pastor e ovelhas.
As ovelhas sabem que o pastor quer o bem delas e sempre que se dirige a elas é para seu bem. As ovelhas não temem o seu pastor, pelo contrário, o respeitam pelo cuidado e pela dedicação que oferece indistintamente a todas elas.
As ovelhas ouvem a voz do seu pastor. Um pastor de ovelhas comentando este texto diz o seguinte: “quando o pastor as chama é com propósito específico; tem em mente o interesse das ovelhas. Não é uma coisa que ele faz só para se divertir ou passar o tempo”.[2] Que palavras instigantes deste pastor quando afirma que o pastoreio no contexto do aprisco não é para divertimento do pastor ou passa tempo, mas pelo contrário, é para o bem das ovelhas.
A expressão elas ouvem a sua voz é uma das principais características do relacionamento entre o pastor e suas ovelhas. No versículo 3 é dito que as ovelhas ouvem a voz do pastor. O sentido da palavra é de prestar atenção, entender, aprender, pois a voz é conhecida. No versículo 4 é dito que as ovelhasreconhecem a voz. O sentido do termo utilizado é mais íntimo, expressando relacionamento, reconhecimento e respeito. Assim, as ovelhas seguem o seu pastor.
As ovelhas não seguem o condutor cuja voz não seja reconhecida. É importante destacar que a parábola contada por Jesus está cheia de afetividade e relacionamento pautado no respeito, na dignidade, na valorização, na busca pelo bem estar das ovelhas e cuidado extremo para com as que estão doentes. Não se trata de escutar e sim de conhecer a voz pela vivência.
Na parábola Jesus diz aos discípulos que Ele é a porta das ovelhas. O pastor sempre chega junto às suas ovelhas por esta porta que se abre e que não é arrombada pela força, pela arrogância, pelo desprezo, pela intimidação e pelo desamor daqueles que se utilizam da função do pastor. É o pastor de ovelhas que diz o seguinte para explicar esta relação entre o pastor e suas ovelhas: “não há nenhuma tensão nem violência neste relacionamento com o pastor de minha alma”.[3]
O pastor guia as suas ovelhas, cuida de todas elas, vai atrás da que se perdeu, alimenta, protege e as conduz pelos caminhos seguros da vida. O ser pastor exige renúncia, humildade, amor, confiança, perseverança e doação, sem o que não se consegue conduzir as ovelhas.
Se não for segundo a perspectiva do aprisco, a Igreja pode ser identificada pela figura de um curral, lugar onde o gado é reunido para receber o sal, a ração e as marcas dos proprietários. Enquanto a figura do aprisco indica metaforicamente o encontro amoroso do pastor com suas ovelhas, o curral indica o local da “ração” para o gado, ou seja, onde metaforicamente as pessoas ruminam o “sal” ou a “ração” que lhes são oferecidos sem, no entanto, vivenciaram os aspectos que compreendem o aprisco.
O que diferencia a metáfora do aprisco para a do curral, é que nesta o “gado” recebe a ração e depois se dispersa de “cabeça baixa” para as pastagens, enquanto na primeira as ovelhas seguem o pastor pelos campos pulando altivas, como que brincando e “celebrando a vida”. Ou seja, no contexto do curral os membros da igreja são como o gado no curral e não como as ovelhas do aprisco. Isto faz uma grande diferença...

Bispo Josué Adam Lazier



[1] RIENECKER, F. , ROGERS, C.  Chave Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1985, p. 178.
[2] KELLER, Phillip. Meditações de um leigo sobre o Bom Pastor e suas ovelhas – da perspectiva de um verdadeiro pastor de ovelhas. São Paulo, SP: Editora Vida, 1981, p. 36.
[3] KELLER, Phillip. Meditações de um leigo sobre o Bom Pastor e suas ovelhas – da perspectiva de um verdadeiro pastor de ovelhas. São Paulo, SP: Editora Vida, 1981, p. 58.


De volta ao aprisco

Hebreus 13.20
Introdução
Esta é a quarta reflexão que faço em torno do tema aprisco e curral. No entanto, Hebreus 13.20 nos traz de volta ao aprisco. O autor se refere a Jesus como o grande pastor das ovelhas. Ele foi apresentado por João como o bom pastor, agora ele retorna no texto de Hebreus como o grande pastor. Ao fazer isto, o autor resgata e restaura a concepção que vem do Antigo Testamento acerca do pastor e que é instigante e paradigmática para o ministério pastoral hoje. Há uma clara referência a Moisés que, com seu cajado e sua autoridade de guia, conduziu o povo do meio da escravidão no Egito até a entrada na Terra Prometida. Em outras palavras, o autor de Hebreus está relacionando o pastoreio de Jesus a um novo êxodo, agora numa perspectiva de salvação escatológica.[i]

O grande pastor
Além de indicar na figura do “grande pastor” o líder Moisés, logicamente que está implícita a imagem de pastor que é atribuída a Deus. Deus é o primeiro e maior pastor. O Salmo 78 narra a história do povo no Antigo Testamento e compara a vida do povo como a de uma ovelha que segue e é guardada pelo seu pastor. Trata-se de um Salmo Didático, pois lembra ao povo as ações de Deus, do Deus Pastor.

Entre as ações estão as seguintes:

1.  Guiar no sentido de apascentar, conduzir. Isaías fala sobre isto quando o povo estava voltando do exílio para reconstruir a Cidade e o Templo de Jerusalém: “Como um pastor apascenta ele o seu rebanho, com o seu braço reúne os cordeiros, carrega-os no seu regaço, conduz carinhosamente as ovelhas que amamentam” (40.11).

2. Prover no sentido de providenciar o necessário para a vida. Lucas 12.22-31 apresenta este lado pastoril de Deus. Conta 3 pequenas parábolas para evidenciar o cuidado e a providência de Deus para com seu rebanho: parábola do corvo, da vida e da erva do campo.

3. Guardar no sentido de defender, vigiar, libertar, reunir e congregar. O profeta Miquéias 2.12 promete que Deus, durante o exílio, reuniria o Seu povo como ovelhas no aprisco: “Reunir-te-ei todo inteiro, Jacó, congregarei o resto de Israel!  Agrupá-los-ei como ovelhas no aprisco, como rebanho no meio da várzea, e haverá ruído longe dos homens” .

4.  Permanecer no sentido de fazer aliança. O tema da aliança de Deus com Seu Povo está presente em toda a Bíblia.   Zacarias 13.9 diz :“Ele invocará o meu nome, e eu lhe responderei; direi: É o meu povo!’  Ele dirá: ‘Deus é o meu Deus”.

Estas ações do Deus Pastor são paradigmáticas para o exercício do ministério pastoral hoje, pois o ambiente social e familiar em que as pessoas estão inseridas, além do ambiente cultural, econômico e político, requerem um pastoreio humanizado e humanitário. Humanizado no sentido de que as pessoas devem ser tratadas com dignidade e respeito pelos pastores e pastoras e não apenas como consumidores de produtos que lhe são vendidos ou ouvintes de seus sermões mal preparados e arroubos de soberba e vaidade. Humanitário no sentido de estar ao lado para socorrer, fortalecer, ouvir, interceder e agir com solidariedade, justiça e amor. Um ministério pastoral que não tenha esta mística será apequenado, muito apequenado.

Não apequenar o pastorado
É interessante observar que o autor de Hebreus oferece indicativos para que o ministério pastoral supere a tendência do apequenamento das ações pastorais quando orienta o rebanho. Ao orientar as ovelhas ele indica o caminho a ser seguido pelos pastores e pastoras.

São várias as recomendações (Hb 13.7-17): lembrar dos guias; lembrar dos que pregaram a palavra; não se envolver com doutrinas estranhas; possuir um altar para oração constante; oferecer o louvor a Deus; possuir lábios que confessem o senhorio de Cristo; não negligenciar a prática do bem; cooperar com os outros; obedecer aos guias que evidenciam estas características de um ministério que se modela no exemplo do Grande e do bom Pastor; pastorear com alegria e não gemendo; e por fim lembrar que todos prestarão contas do que fazem com suas responsabilidades e ministérios.

Conclusão
Para não concluir, termino com as palavras do autor de Hebreus: “Que o Grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém” (Hb 13.20-21).

Bispo Josué Adam Lazier
 Leia as outras reflexões sobre esta temática:

Entre o aprisco e o curral.

Ministério no aprisco versus ministério no curral.

Para estar no aprisco e não no curral.
 [i] BOSETTI, Elena; SALVATORE, A. Panimolle. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 57. 

O aprisco e a manjedoura


Introdução
Pastorear é se relacionar com as pessoas. O trabalho pastoral se constitui numa constante ação de afetividade. Sem ela o pastoreio se torna frio, distante e burocratizado. A afetividade aproxima as pessoas, aproxima o pastor e a pastora das pessoas e das famílias e produz uma convivência saudável.
É num ambiente de afetividade que o ato de pastorear se plenifica, se integraliza e se concretiza em frutos na vida das pessoas. Neste sentido, observar a cena que se desenrola no interior do aprisco, onde há uma manjedoura e pessoas envolvidas na trama é, no mínimo, receber uma motivação para o pastoreio afetivo e efetivo.
O pastoreio deve ser desenvolvido tendo o ministério de Jesus como modelo. Nesta reflexão vamos olhar o local onde Jesus nasceu e buscar no simbolismo do ocorrido a inspiração para um pastoreio no âmago do aprisco. O ministério, nesta perspectiva, tem algumas características que se ressaltam:
1. Simplicidade. O ministério deve ser exercido com simplicidade e na simplicidade. Vivemos dias em que a tecnologia, a estatística, o sofisticado, etc, estão em voga e as igrejas, via de regra, buscam estes recursos da modernidade para o desenvolvimento de suas atividades. No entanto, a Igreja não pode perder a simplicidade no cumprimento de sua missão e não deve deixar de atuar na sociedade de forma a alcançar os simples e os símplices de coração. O êxito do ministério da Igreja não pode ser medido pela quantidade de tecnologia ou modernidade que ela adquira e sim pela capacidade de ser simples no anúncio e na vivência do Evangelho.
2. Acolhimento. Olhando para a manjedoura onde Jesus nasceu e que se constitui o principal cenário do natal, descobrimos que o acolhimento é outra característica do ministério na perspectiva da afetividade. A manjedoura acolheu o casal de viajantes, cuja mulher estava prestes a dar à luz um menino, o que ocorreu em meio a sinais de humildade e simplicidade. A manjedoura indica o acolhimento que deve ser uma das marcas ministeriais. O ministério, nesta perspectiva, é a mediação feita entre a graça de Deus e as pessoas que não encontram outro lugar para ficar, que encontram portas fechadas, ou cujas portas são fechadas em suas “caras”. A Igreja, neste sentido, é o lugar dos que foram privados de viverem plenamente a vida. Se a Igreja perder esta perspectiva o seu ministério terá pouca relevância para os dias de hoje.
3. Gratuidade. O ministério modelado pela singeleza da manjedoura deve ser exercido na perspectiva da gratuidade e não da troca ou do mercantilismo. A família que se abrigou na manjedoura não pagou nada pela estadia entre feno e animais, indicando assim que a mensagem de fé, de esperança, de amor e de salvação também é gratuita. As pessoas que se oferecem para trabalhar nos ministérios da Igreja e que não recebem para isto, devem fazê-lo na perspectiva da doação, do serviço e nunca da recompensa, ou do salário, ou do subsídio. A Igreja deve dar dignidade a seus obreiros e obreiras, mas não perder a gratuidade de sua ação pastoral.
4. Solidariedade. A manjedoura é evidência da solidariedade. Aliás, a manjedoura atrai pessoas que vão até o local para ver o menino que lá nasceu. A solidariedade daquele lugar, simples, mas quente e acolhedor, inspira a Igreja a ir ao encontro dos que precisam de apoio e de esperança. A manjedoura inspira a Igreja a sair de si mesma para estar entre os que se perderam, entre os doentes, entre os encarcerados, entre os feridos, entre os que não são contados como gente. A solidariedade nos aproxima dos diferentes, pois o que vale é a vida que é igual para todos. O ministério pastoral que tem esta mística é solidário em todo o tempo.
5. Transparência. A manjedoura desnuda os personagens presentes no cenário. Eles se revelam naquele ambiente singular. O ministério pastoral nesta perspectiva deve ser transparente e não ter “aparência” que não se confirme com as práticas. Os estereótipos, os trejeitos, as “coreografias” que são praticadas no exercício do ministério pastoral, tendem a maquiar a face pública do pastorado e da igreja. Olhando para a manjedoura, há que se ter transparência para não se chegar as raias do farisaísmo.
Conclusão
Estas cinco características evidenciam um ministério afetivo, voltado para o cuidado e para o bem estar das pessoas pastoreadas. Estas características são alcançadas pelo esforço pessoal e pela busca constante de transformação e maturação, e desenvolvidas por uma espiritualidade que não fique apenas na superficialidade da vivência humana, mas alcance o âmago da vida, o âmago dos relacionamentos e âmago da dedicação integral e plena a Deus. Chego a pensar que sem estas características a manjedoura se transforma em cocho de sal para gado. Deus chamou o pastor e a pastora para atuarem na perspectiva da manjedoura, onde a vida se desenrola marcada pela afetividade e pelo cuidado pastoral. Que Deus nos ajude nesta caminhada desafiadora.

Bispo Josué Adam Lazier


Ministério no aprisco versus ministério no curral

As parábolas de Lucas e de Ezequiel


Introdução

As figuras do aprisco e do curral desafiam nossa reflexão e nos convidam a considerarmos o que diferencia o ministério entre um e o outro.
Enquanto a figura do aprisco indica metaforicamente o encontro amoroso do pastor com suas ovelhas, o curral indica o local da ‘ração’ para o gado, ou seja, onde metaforicamente as pessoas ruminam o ‘sal’ ou a ‘ração’ que lhes são oferecidos sem, no entanto, vivenciaram os aspectos que compreendem o aprisco”.1

Para isto, faremos uma leitura de dois textos bíblicos que nos auxiliarão em nossa reflexão nesta linha de pensamento. O primeiro texto é o de Lucas 15.4-7, onde é contada a parábola da ovelha perdida. O segundo texto é o de Ezequiel 34.1-10, onde são apresentadas características negativas na vida dos líderes, o que nos leva a pensar no exercício de um ministério na perspectiva do curral.


1. A parábola da ovelha perdida – Lucas 15.4-7

Restauração

A parábola da ovelha perdida tem como seu tema central a restauração da ovelha que se perdeu e que causa no pastor, nos amigos e vizinhos, alegria quando ela é encontrada. Ela assinala que Deus procura os pecadores e é sempre Ele quem toma a iniciativa para que recebam a nova vida em Cristo Jesus.
    
Para os religiosos daquela época, Deus receberia somente as ovelhas arrependidas, mas para Jesus, Deus procura as desgarradas, machucadas, violentadas, atingidas pelas feridas da vida e as restaura ao seu aprisco.
    
Ir ao encontro da que está perdida
Esta é a idéia presente na parábola da ovelha perdida. O pastor deixa as noventa e nove ovelhas que estão seguras e vai procurar a que se perdeu. Quando a encontra descobre que está machucada pela queda e carrega-a para casa (15.5). “Surpreendentemente, este pastor se regozija com o fardo de restauração que ainda está diante dele. Este tema é importantíssimo nesta primeira parábola”.2
    
Além disto, o pastor revela que a ovelha era importante para ele. Ele percorre um longo caminho, quiçá fazendo sacrifícios e suportando as dificuldades em encontrar a ovelha perdida.

Pensemos nos sacrifícios suportados pelo pastor andando nas pegadas da ovelha perdida e percorrendo montes e vales, sem desistir, até encontrá-la (Lc 15,4). Nessa parábola, a preciosidade da ovelha perdida é insinuada também pelo adjetivo possessivo. O pastor exclama: ‘encontrei a minha ovelha’ (Lc 15.4)”.3

Carregar pelos braços
A ação no contexto do aprisco deve cuidar das que estão seguras e se alegrar com as que nunca se perderam, mas não pode deixar de focar as que se extraviaram e precisam de cuidado e restauração. Esta ação de restaurar tem todo um sentido afetivo por parte do pastor: ela toma a ovelha em seus braços e leva-a casa. Trata-se de uma atitude de cuidado, de respeito e de valorização da ovelha que, mesmo que tenha sido rebelde em se desviar do caminho pelo qual o pastor conduzia o rebanho, é tratada com consideração. A restauração é fruto desta soma de atitudes do pastor, especialmente da afetividade.
    
O profeta Isaías afirma o seguinte falando do relacionamento de Deus com seu povo: “como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os braços, recolherá os cordeirinhos e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente” (Isaías 40.1).
    
A alegria do pastor
Além da restauração estar enfatizada nesta parábola, a alegria pelo retorno da ovelha que se perdeu também é indicada, pois ela é contagiante: todos que recebem a notícia se alegram e celebram, pois “haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”, conforme o texto de Lucas  15.7.
    
A gratuidade na ação pastoral
A parábola apresenta quatro temas: a alegria do pastor, a alegria da restauração, o amor gracioso e o arrependimento.4 Estes temas são norteadores de um ministério na perspectiva do aprisco. O ministério na perspectiva do aprisco tem o tom da gratuidade e não da troca ou do mercantilismo. Como já expressamos em outros textos, afirmamos “que as pessoas que se oferecem para trabalhar nos ministérios da Igreja e que recebem para isto devem fazê-lo na perspectiva da doação, do serviço e nunca da recompensa, ou do salário, ou do subsídio”.5

2. A parábola dos pseudo-pastores – Ezequiel 34.1-10

O profeta Ezequiel, cujo ministério se deu no período do exílio e junto aos desterrados, toca no tema do pastoreio das ovelhas. Ele anunciava a mensagem de que Jerusalém chegava ao fim em virtude da corrupção que havia tomado conta da vida dos líderes do povo e da crise que se alojara entre o povo, uma vez que seus líderes estavam desleixados em relação aos seus compromissos. Em outras palavras, os líderes deixaram de pastorear e conduzir o rebanho e se dedicaram aos seus próprios negócios, ou como diz Ezequiel, se apascentavam a si mesmos. O povo vivia sob o impacto do desterro e do distanciamento do Templo, que simbolizava a identidade e a religião que professavam e eram como ovelhas sem pastor. No entanto, Deus revela que Ele mesmo vai pastorear as suas ovelhas.

“Ezequiel é o profeta que desenvolve mais amplamente o tema de Iaweh-pastor. Dedica a ele todo o cap. 34, no qual contrapõe o comportamento de Deus ao dos falsos pastores que, em vez de apascentarem o povo de Deus, apascentam a si mesmos (vv. 2-10)”.6

Aqui entra nossa metáfora do curral. O povo nesta época vivia sem o cuidado, a direção, a condução e o pastoreio de seus líderes ou pastores. O profeta denuncia isto quando apresenta o perfil dos falsos pastores.

As palavras do profeta são claras e específicas. Não há como não compreender a mensagem que Ezequiel apresenta e que caracteriza os pastores que na expressão bíblica são falsos pastores. Vejamos:

      1. Apascentam-se a si mesmos, ou seja, estão preocupados com o seu bem estar em detrimento do bem estar das ovelhas. O que importa é a satisfação dos desejos e das necessidades pessoais e não as do rebanho.

      2. Comem a gordura das ovelhas e se vestem com a lã. Em outras palavras, isto quer dizer exploração e violência cometidas contra o rebanho.
    
      3. Não dão apoio às que estão enfraquecidas com a situação de desterro, pobreza e opressão a que estavam submetidas as ovelhas, ou o povo de Deus. Devemos lembrar que o povo está no exílio como escravo.
    
      4. Não curam as doentes e nem restauram as que estão machucadas. Não há nenhuma ação por parte dos líderes do povo que produza restauração, cura e libertação. Os pastores se transformaram em lobos vorazes.
    
      5. Não procuram as desgarradas e não vão atrás das que estão perdidas. A ação que mais caracteriza o trabalho pastoral que é conduzir as ovelhas por caminhos seguros não era praticada pelos pseudo-pastores da parábola de Ezequiel.
    
      6. Por outro lado, eram dominadores, violentos, arrogantes, cujo “manejo” das ovelhas era feito com dureza e muito rigor. Uma boa forma de identificar um pastor dominador e dissimulado é reparar se ele olha com ternura para suas ovelhas. O olhar do pastor revela se de fato cumpre com sua função ou vocação na perspectiva da parábola de Lucas ou se na perspectiva da parábola de Ezequiel.
     
Assim, Ezequiel, o profeta do desterro, descreve a vida num curral.

Conclusão
    
Não dá para concluir um assunto de tamanha delicadeza e tamanho desafio. Dá sim para lamentar que em nosso meio se instalem modelos de pastoreio na perspectiva do curral, onde o que vale é a vontade do pastor e o seu bem estar.
    
Não dá para concluir, mas dá para lamentar que a Igreja vivencie esta tensão e que acabe por predominar um modelo de dominação, intimidação e dissimulação. Eu conheço pastor que não consegue olhar nos olhos de suas ovelhas e prefere olhar de soslaio, ou de forma esguelha. O pastoreio, desta forma, é realizado por “viés”. O que significa dizer um ministério “meio furtivo, esconso, tortuoso de obter, fazer ou concluir algo”.7
     
Não dá para concluir, mas que Deus tenha misericórdia de nós.
    
     
Bispo Josué Adam Lazier

    
1 LAZIER, Josué Adam. Entre o Aprisco e o Curral. Postado no blog: www.josue.lazier.blog.uol.com.br em 13 de julho de 2009.
2 BAILEY, Kenneth. As Parábolas de Lucas. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1985, pg. 199.
3 BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 75.
4 BAILEY, Kenneth. As Parábolas de Lucas. São Paulo, SP: Editora Vida Nova, 1985, pg. 203.
5LAZIER, Josué Adam. O Ministério na Perspectiva da Manjedoura. Postado no blog: www.josue.lazier.blog.uol.com.br em 23 de dezembro de 2008.
6 BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 30.
7 HOUAISS. Dicionário eletrônico da Língua Portuguesa 1.0.

Para estar no aprisco e não no curral

O ministério de acordo com I Pedro 5.1-4


Introdução
Esta é a terceira reflexão que faço em torno do tema aprisco e curral. A primeira eu intitulei “Entre o aprisco e o curral”, onde descrevi brevemente as características de cada uma. A segunda reflexão eu intitulei de “Ministério no aprisco versus ministério no curral”, em cujo texto indiquei algumas diferenças entre os dois tipos de ministérios, levando-se em conta as parábolas de Lucas 15 e a de Ezequiel 34.

Nesta reflexão quero abordar os conselhos apostólicos de Pedro quando se dirigiu aos cristãos que se encontravam na dispersão no Ponto, Galacia, Capadócia, Ásia e Bitínia. O apóstolo chama-os de forasteiros, porque viviam em outras terras, mas assim o faziam como eleitos de Deus e santificados no Espírito Santo (I Pe 1.2).

Como os seguidores de Cristo viviam em um ambiente de hostilidade, o exercício do pastoreio junto ao povo era fundamental para preservação da fé e perseverança na vida cristã. Desta forma, o apóstolo se dirige aos dirigentes dando-lhes várias recomendações de como pastorear naquelas condições. Na verdade ele faz uma comparação entre dois modelos de pastoreio, que estou chamando de aprisco e curral. Ao fazer isto, é incisivo e desafiador, pois suas palavras exortam e edificam.

Diálogo com os líderes da comunidade
Ele designa os líderes de presbíteros, por serem as pessoas que adquiriram experiências ao longo de suas vidas e foram reconhecidas como líderes da comunidade que se encontrava dispersa por vários lugares. Os presbíteros deveriam ser como referências de obediência e dedicação a Deus para os demais que iniciavam a jornada de fé. Ao se dirigir a eles assinala o pastoreio na perspectiva do aprisco e se apresenta como co-servo, co-ancião e cooperador, como alguém que testemunhou os sofrimentos de Cristo e tornou-se testemunha da ressurreição (5.1).

O apóstolo Pedro indica três características do que estamos chamando de ministério no aprisco ou ministério no curral. Inicia sua recomendação com a expressão “rogo”, em grego parakaleo, que significachamar ao lado, convidar para uma conversa. É desta forma que o apóstolo se dirige aos líderes, ou seja, pastoralmente convida para uma conversa mais íntima acerca do cuidado pastoral. Nesta conversa ele pede que o pastoreio aconteça e passa a indicar as características.

Espontaneamente
Ele diferencia o aprisco do curral quando indica que o pastoreio deve ser feito espontaneamente e não por constrangimento. A palavra constrangimento tem o acento de obrigação, coação, sem alegria, sem motivação, sem zelo e sem compromisso com o rebanho. Para Pedro o pastoreio deve ser exercido de forma livre, da forma que Deus o quer, sem imposições e legalismos, mas com respeito, cuidado e dignidade.

A ordem de apascentar voluntariamente, segundo Deus, poderia então significar: não cumprais a vossa obrigação coagidos pela imposição das mãos sobre vós. Redescobri as motivações da fé, ‘segundo Deus’, que estão na origem do vosso ministério, e deixai-vos guiar por elas”.[1]

É uma recomendação instigante e relevante para os dias de hoje, pois este é o ministério feito no aprisco. Nele não há coação e nem intimidação, não há ameaças e nem dissimulações. É um pastoreio com o coração aberto e cheio de amor e de esperança para com as pessoas, feito com honestidade e com voluntariedade.

De boa vontade
Na recomendação anterior o curral estava na coação, na presente orientação está na sórdida ganância ou na avidez por ganho. O tema do dinheiro entra na pauta de recomendações do apóstolo, pois a ganância é uma força destrutiva do ministério “como Deus o quer”. Deus quer o ministério de boa vontade, com generosidade, com magnanimidade, onde a tentação pelo lucro e pela satisfação dos interesses pessoais é superada.

O termo grego utilizado e traduzido porboa vontade, tem o sentido de zelo, de cuidado. “A palavra é extremamente forte e expressa entusiasmo e zelo devotado”.[2] O ministério no aprisco tem esta perspectiva desafiadora para os dias de hoje, especialmente levando-se em conta os movimentos de negociação e de busca de recompensas financeiras pelo trabalho pastoral. Pedro, ao se dirigir aos líderes da comunidade, faz um apelo para que a disposição que estava presente no início do ministério seja restaurada e renovada. Assim, os presbíteros deveriam pastorear
não forçados, mas de bom grado, obedecendo à vontade divina; não por causa do lucro, mas por devotamento ao próximo; não com modos ásperos, como tiranos, mas dando o exemplo de suavidade e delicadeza”.[3]

Como modelos do rebanho
Pedro não deixa dúvidas. O ministério realizado com violência, com dominação, com patrulhamento, não é o Deus quer. Deus quer um ministério livre, espontâneo e caracterizado pela disposição em servir. O acento da recomendação está no relacionamento de serviço em prol das ovelhas. As recomendações de Cristo aos discípulos e expostas pelos evangelistas estão diretamente ligadas a esta recomendação petrina, especialmente as que falam que os maiores são os que servem e não os que se assentam à mesa (Mc 10.43-44).

Numa situação de aprisco não há dominação, há sim doação, dedicação e humildade. “A humildade proposta por Cristo não tem nada a ver com os meios usados para se fazer carreira e chegar ao poder”.[4]

Para continuar refletindo
Considerar as palavras do apostolo Pedro é sair da perspectiva do curral e entrar na do aprisco, é pensar na dimensão pública do pastoreio e do serviço que a Igreja deve prestar à sociedade. É pensar na inclusão dos que são excluídos, é pensar na libertação dos que são oprimidos, é denunciar quando a vida, dom de Deus, é aviltada pela violência contra crianças, contra mulheres, contra os idosos e contra os que são diferentes, é pensar na vida integral e no resgate da dignidade humana. É pastorear num ambiente de aprisco.
Dar atenção as palavras de Pedro é sair do curral e entrar no aprisco, pois suas palavras continuam a instigar a liderança da igreja nos dias de hoje.

Bispo Josué Adam Lazier




[1] BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 102.
[2] RIENECKER, Fritz – ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo, SP: Edições Vida Nova, 1985, p. 567.
[3] BALLARINI, T. e outros. Introdução à Bíblia, vol. V/2. Petrópolis, RJ: Editora Vozes Ltda, 1969, p. 345.
[4] BOSETTI, Elena. Deus-Pastor na Bíblia – solidariedade de Deus com seu povo. São Paulo, SP: Edições Paulinas, 1986, p. 112.