O aprisco e a manjedoura


Introdução
Pastorear é se relacionar com as pessoas. O trabalho pastoral se constitui numa constante ação de afetividade. Sem ela o pastoreio se torna frio, distante e burocratizado. A afetividade aproxima as pessoas, aproxima o pastor e a pastora das pessoas e das famílias e produz uma convivência saudável.
É num ambiente de afetividade que o ato de pastorear se plenifica, se integraliza e se concretiza em frutos na vida das pessoas. Neste sentido, observar a cena que se desenrola no interior do aprisco, onde há uma manjedoura e pessoas envolvidas na trama é, no mínimo, receber uma motivação para o pastoreio afetivo e efetivo.
O pastoreio deve ser desenvolvido tendo o ministério de Jesus como modelo. Nesta reflexão vamos olhar o local onde Jesus nasceu e buscar no simbolismo do ocorrido a inspiração para um pastoreio no âmago do aprisco. O ministério, nesta perspectiva, tem algumas características que se ressaltam:
1. Simplicidade. O ministério deve ser exercido com simplicidade e na simplicidade. Vivemos dias em que a tecnologia, a estatística, o sofisticado, etc, estão em voga e as igrejas, via de regra, buscam estes recursos da modernidade para o desenvolvimento de suas atividades. No entanto, a Igreja não pode perder a simplicidade no cumprimento de sua missão e não deve deixar de atuar na sociedade de forma a alcançar os simples e os símplices de coração. O êxito do ministério da Igreja não pode ser medido pela quantidade de tecnologia ou modernidade que ela adquira e sim pela capacidade de ser simples no anúncio e na vivência do Evangelho.
2. Acolhimento. Olhando para a manjedoura onde Jesus nasceu e que se constitui o principal cenário do natal, descobrimos que o acolhimento é outra característica do ministério na perspectiva da afetividade. A manjedoura acolheu o casal de viajantes, cuja mulher estava prestes a dar à luz um menino, o que ocorreu em meio a sinais de humildade e simplicidade. A manjedoura indica o acolhimento que deve ser uma das marcas ministeriais. O ministério, nesta perspectiva, é a mediação feita entre a graça de Deus e as pessoas que não encontram outro lugar para ficar, que encontram portas fechadas, ou cujas portas são fechadas em suas “caras”. A Igreja, neste sentido, é o lugar dos que foram privados de viverem plenamente a vida. Se a Igreja perder esta perspectiva o seu ministério terá pouca relevância para os dias de hoje.
3. Gratuidade. O ministério modelado pela singeleza da manjedoura deve ser exercido na perspectiva da gratuidade e não da troca ou do mercantilismo. A família que se abrigou na manjedoura não pagou nada pela estadia entre feno e animais, indicando assim que a mensagem de fé, de esperança, de amor e de salvação também é gratuita. As pessoas que se oferecem para trabalhar nos ministérios da Igreja e que não recebem para isto, devem fazê-lo na perspectiva da doação, do serviço e nunca da recompensa, ou do salário, ou do subsídio. A Igreja deve dar dignidade a seus obreiros e obreiras, mas não perder a gratuidade de sua ação pastoral.
4. Solidariedade. A manjedoura é evidência da solidariedade. Aliás, a manjedoura atrai pessoas que vão até o local para ver o menino que lá nasceu. A solidariedade daquele lugar, simples, mas quente e acolhedor, inspira a Igreja a ir ao encontro dos que precisam de apoio e de esperança. A manjedoura inspira a Igreja a sair de si mesma para estar entre os que se perderam, entre os doentes, entre os encarcerados, entre os feridos, entre os que não são contados como gente. A solidariedade nos aproxima dos diferentes, pois o que vale é a vida que é igual para todos. O ministério pastoral que tem esta mística é solidário em todo o tempo.
5. Transparência. A manjedoura desnuda os personagens presentes no cenário. Eles se revelam naquele ambiente singular. O ministério pastoral nesta perspectiva deve ser transparente e não ter “aparência” que não se confirme com as práticas. Os estereótipos, os trejeitos, as “coreografias” que são praticadas no exercício do ministério pastoral, tendem a maquiar a face pública do pastorado e da igreja. Olhando para a manjedoura, há que se ter transparência para não se chegar as raias do farisaísmo.
Conclusão
Estas cinco características evidenciam um ministério afetivo, voltado para o cuidado e para o bem estar das pessoas pastoreadas. Estas características são alcançadas pelo esforço pessoal e pela busca constante de transformação e maturação, e desenvolvidas por uma espiritualidade que não fique apenas na superficialidade da vivência humana, mas alcance o âmago da vida, o âmago dos relacionamentos e âmago da dedicação integral e plena a Deus. Chego a pensar que sem estas características a manjedoura se transforma em cocho de sal para gado. Deus chamou o pastor e a pastora para atuarem na perspectiva da manjedoura, onde a vida se desenrola marcada pela afetividade e pelo cuidado pastoral. Que Deus nos ajude nesta caminhada desafiadora.

Bispo Josué Adam Lazier


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